Era uma sexta-feira à tarde, faltando três semanas pra viagem, quando uma mãe descobriu que o passaporte do filho tinha expirado. O voo estava marcado, o hotel pago, a mala já mentalmente arrumada — e o documento que viabilizava tudo isso tinha vencido havia oito meses. Não é uma história rara. Acontece todo ano, em famílias organizadas, com pessoas que acham que “isso só acontece com descuidado”.
O problema real não é a falta de documento. É a ilusão de que emitir passaporte infantil é simples, então dá pra deixar pra depois. A burocracia em si não é absurda — mas ela tem armadilhas específicas quando o solicitante é menor de idade, e a maioria das pessoas descobre essas armadilhas na hora errada.
Por que o passaporte de criança tem regras diferentes do adulto
O passaporte infantil exige presença e concordância de ambos os responsáveis legais — e isso muda tudo na logística do processo. Não basta um dos pais comparecer com a criança. Em situações específicas, como pais separados ou um dos responsáveis no exterior, o processo pode travar por semanas se você não souber o que preparar com antecedência.
A Polícia Federal, responsável pela emissão de passaportes no Brasil, tem regras claras para menores de 18 anos. A emissão segue o mesmo fluxo de agendamento online pelo site oficial da PF, mas os documentos exigidos são mais numerosos e dependem da situação familiar da criança — se os pais são casados, separados, se um deles faleceu, ou se a criança tem apenas um responsável registrado.
Outro detalhe que pouca gente menciona: o passaporte de menor tem validade de cinco anos, não dez como o do adulto. Isso significa que uma criança que tirou o passaporte com quatro anos vai precisar renovar antes dos dez — e se você planejar uma viagem quando ela tiver nove, pode se surpreender com um documento vencido que você esqueceu de verificar.
Lista completa de documentos para 2026
Os documentos exigidos pela Polícia Federal para emissão de passaporte de menor em 2026 são os seguintes. Leve os originais e, quando possível, uma cópia de cada um — alguns postos pedem, outros não, mas é melhor não arriscar.
Documentos da criança
- Certidão de nascimento original — não adianta levar só a cópia. O documento precisa ser o original ou uma segunda via recente emitida pelo cartório.
- RG (se a criança já tiver) — para crianças acima de cinco anos que já fizeram o registro civil com foto, leve o documento.
- CPF da criança — obrigatório desde 2023 para emissão de novos passaportes.
- Passaporte anterior — se houver, deve ser apresentado para cancelamento.
- Foto 5×7 recente — fundo branco, rosto inteiro visível, sem chapéu ou óculos. Criança pequena pode ser fotografada no colo, mas o rosto precisa estar desobstruído.
Documentos dos responsáveis
- RG e CPF de ambos os pais ou responsáveis legais — originais.
- Comprovante de estado civil — certidão de casamento (se casados), certidão de casamento com averbação de divórcio (se separados), ou certidão de óbito do outro responsável (em caso de falecimento).
Quando apenas um responsável pode comparecer
Se os dois pais estão presentes e concordam com a emissão, o processo é direto. Mas se apenas um puder ir ao posto da PF, o outro precisa assinar uma autorização por escrito com firma reconhecida em cartório. Sem isso, o atendente não dá continuidade ao processo — e não adianta argumentar na hora.
Se os pais são separados e um deles não quer autorizar, há a possibilidade de autorização judicial. Isso leva tempo e, dependendo da comarca, pode levar semanas. Se a sua situação é essa, não deixe pra última hora.
Como funciona o agendamento na prática
O agendamento é feito pelo site da Polícia Federal — hoje integrado ao sistema gov.br. Você escolhe o posto, a data e o horário disponível. Nos postos das capitais, especialmente em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, as datas costumam estar lotadas com duas a quatro semanas de antecedência em períodos de alta demanda, como outubro a março, que concentra férias escolares e viagens de fim de ano.
Um detalhe que aprendi da pior forma: o agendamento é por CPF do solicitante — no caso de menor, é o CPF da criança. Se você tentar agendar mais de uma vez no mesmo CPF para o mesmo serviço, o sistema pode bloquear. Então antes de tentar corrigir um agendamento, cancele o anterior adequadamente pelo portal.
A taxa de emissão do passaporte comum em 2026 é paga via GRU (Guia de Recolhimento da União), gerada no próprio sistema da PF durante o agendamento. O valor varia conforme o tipo de passaporte e o prazo — passaporte comum tem valor menor que o passaporte com entrega expressa. Consulte o valor atualizado diretamente no site da PF antes de ir, porque reajustes acontecem.
Um caso real: o que deu errado e o que funcionou
Uma família de Curitiba planejou uma viagem com a filha de sete anos pra Portugal em fevereiro de 2026. Começaram o processo em novembro — dois meses antes, o que parecia tempo suficiente. Chegaram ao posto da PF com tudo que achavam necessário: certidão de nascimento, CPF, fotos. Mas os pais são separados desde 2021, e a mãe foi sozinha com a menina. A autorização do pai? Não tinha.
Voltaram para casa. O pai morava em outra cidade. Levou mais dez dias pra conseguir a autorização com firma reconhecida, agendar novo horário — que estava lotado — e finalmente emitir o documento. O passaporte chegou seis dias antes da viagem. Funcionou, mas foi um mês de estresse que poderia ter sido evitado com uma leitura prévia dos requisitos.
O que salvou foi o prazo. Se tivessem começado em dezembro, provavelmente perderiam o voo.
O que não funciona — e por quê
Algumas abordagens que as pessoas tentam, e que invariavelmente complicam mais do que resolvem:
1. Deixar pra última hora confiando no “passaporte expresso”. O serviço expresso da PF tem custo maior e prazo reduzido, mas não é mágica — ainda depende de agendamento, que pode estar indisponível, e não resolve problemas de documentação incompleta. Se faltar a autorização do outro responsável, nem o expresso adianta.
2. Tentar resolver sem o CPF da criança. Desde que o CPF passou a ser obrigatório para emissão de passaporte de menores, não adianta tentar sem ele. O sistema bloqueia. Se sua criança ainda não tem CPF, tire primeiro — o processo é gratuito e pode ser feito em agências dos Correios, agências bancárias conveniadas e cartórios.
3. Ir ao posto sem agendamento prévio. Alguns postos da PF têm atendimento de demanda espontânea em horários específicos, mas isso varia por unidade e não é garantido. Na maioria dos postos, sem agendamento, você não é atendido. Simples assim.
4. Confiar na foto tirada em casa com fundo editado no celular. A PF tem padrão técnico pra foto de passaporte. Fundo branco real, sem sombras, sem filtros, enquadramento correto. Foto tirada em casa com fundo editado digitalmente costuma ser recusada no balcão. Vale muito mais pagar R$ 15 a R$ 25 numa loja de revelação pra ter a foto no padrão certo do que arriscar.
Situações especiais que merecem atenção
Criança registrada só no nome de um dos pais: se a certidão de nascimento tem apenas um responsável, o processo é mais simples — só esse responsável precisa comparecer. Mas leve a certidão que comprova isso, pra não haver dúvida no atendimento.
Criança sob guarda de terceiros (avós, tutores): é necessário apresentar o documento judicial que comprova a tutela ou guarda. Não basta declaração informal.
Criança com nome diferente do pai ou da mãe (comum em famílias recompostas): leve documentos que expliquem a relação — certidão de nascimento atualizada costuma resolver, mas se houver qualquer inconsistência nos nomes, prepare documentação complementar.
Quanto tempo leva do agendamento até o passaporte na mão
O prazo oficial para passaporte comum, após o atendimento no posto, é de até seis dias úteis para entrega nos Correios. Na prática, em períodos de baixa demanda, costuma chegar em três a quatro dias úteis. Mas em janeiro, julho e dezembro — picos de viagem — esse prazo pode esticar.
Some o tempo de conseguir agendamento (que pode ser de uma a três semanas dependendo do posto e da época) com o prazo de emissão, e você percebe que o processo completo pode levar de duas a cinco semanas do início ao fim. Planejando com dois meses de antecedência, você tem margem confortável pra qualquer imprevisto.
Três coisas que você pode fazer ainda hoje
Não precisa resolver tudo agora. Mas se você tem uma viagem com criança nos próximos seis meses — ou está só pensando em planejar uma — três passos pequenos já resolvem boa parte do estresse:
Primeiro: pegue o passaporte da criança agora e verifique a data de validade. Se vence em menos de seis meses, coloque um lembrete no calendário pra iniciar a renovação essa semana.
Segundo: se a criança ainda não tem passaporte, acesse o site da Polícia Federal e veja a disponibilidade de agendamento no posto mais próximo de você. Só olhar já te dá uma noção real do prazo.
Terceiro: se os pais são separados ou apenas um dos responsáveis vai comparecer ao posto, já fale com o outro responsável sobre a autorização — e tire a dúvida sobre se ele precisará reconhecer firma em cartório. Resolver isso com calma leva dois dias. Resolver correndo pode levar duas semanas.
Passaporte infantil não é difícil. Mas tem detalhes que, se você não souber antes, aparecem na hora errada. E na hora errada, qualquer detalhe vira um problema maior do que precisava ser.
